quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Grego – Língua Macária



A vantagem de estudar uma língua milenar como o grego é conseguirmos alargar o nosso léxico através de relações etimológicas feitas a partir de pequenas palavras dessa língua helénica. Além disso, permite um aprofundamento da história e da cultura gregas. Permite inclusive a compreensão de mitos e a sua ligação a aspetos do nosso quotidiano.
De facto, o mundo heleno antigo está tão presente no nosso dia-a-dia que não nos apercebemos dessa herança. Desde o seu alfabeto – palavra composta pelas suas duas primeiras letras: α alfa + β beta – até inúmeras palavras presentes na política, na história, na filosofia, nas ciências e na medicina, convivemos com ele diariamente. Graças a Hipócrates, considerado o pai da medicina, temos mais de 75 mil termos ligados ao mundo médico. Alguns exemplos disso são biópsia, patologia, leucemia, cardiopatia, endoscopia, osteoporose, hepatite, estomatologia, otorinolaringologista…
A língua de Homero mostra-nos, por exemplo, que a palavra hipopótamo é composta por duas gregas: ἵππος [hypos (cavalo)] e ποταμός [potamos (rio)], o que nos permite facilmente compreender que este animal é considerado “um cavalo do rio”; também o segundo termo aparece na palavra Mesopotâmia [μέσος (no meio) + ποταμός [rio]; de facto, esse local está entre os rios Tigre e Eufrates. Esta língua do saber possibilita ainda a compreensão da evolução semântica de certas palavras: hipócrita [ὑποκριτἠς] era um ator ou intérprete teatral, isto é, alguém que representava atrás duma máscara. Hoje empregamos essa palavra quando nos referimos a alguém dissimulado, pois “representa” com falsidade.
Podemos ainda olhar para outros étimos gregos, que nos ajudarão a entender outras palavras das mesmas famílias: glicemia [γλυκύς (glykýs - doce) + αἷμα (haima - sangue)] explica-nos a glicose, a hipo ou hiperglicemia, a glicerina…; Panteão [πᾶν (todos) + θεός (theós – deuses)] esclarece-nos a Pandora [todos os dons - δῶρα]; a pandemia [algo que atinge todo o δῆμος - demos – povo]; a pandermite [inflamação que atinge toda a pele – δέρμα]; e a panóplia [todas as armas - ὅπλα]. Também a πόλις (pólis – cidade) nos auxilia na compreensão de palavras como acrópole [ἂκρος (ákros – parte alta) + πόλις], metrópole [μητός (mêtrós – mãe) + πόλις]; política [πόλις + τέχνη (tékne – técnica/arte)], Constantinopla (cidade de Constantino); Nápoles [νέα + πόλις -> nova cidade, construída ao lado de Paleópolis, cidade velha]...
Com a chegada do inverno, regressa o frio [κρύος (krýos) cf. criopreservação] e ficamos mais suscetíveis a doenças [πάθος  (páthos) cf. patologia]; por isso, por vezes, precisamos dum médico [ἰατρός (iatrós) cf. pediatra]. Se nos receitar um medicamento antipirético [ἀντί + πυρός + τέχνη], vemos que se trata dum fármaco com uma “técnica contrária ao fogo”, ou seja, é um remédio contra a febre.
Polinésia, Macronésia, Micronésia, Melanésia e Indonésia têm um étimo comum que significa “ilha”. Conseguimos facilmente compreender que as ilhas podem ser muitas, grandes, pequenas, negras, ou estarem situadas no Índico. Mais próximo de nós temos também a Macaronésia [μακάριος (makários – feliz) + νῆσια (nêssia - ilha)]. Daí considerarmos as ilhas dos Açores, Madeira, Desertas, Canárias e Cabo Verde ilhas abençoadas/afortunadas/felizes.      

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Τέχνη et al.



Dizia uma vez um professor universitário brasileiro “Deem-me um bom aluno de Latim ou Grego e eu farei dele um grande matemático.” De facto, estas línguas clássicas são apelidadas de matemáticas das línguas. Se decompusermos, por exemplo, a palavra Matemática, verificamos que ela é constituída por μαθ [mat], o tema do verbo μανθάνω, [mantáno] que significa “aprender” e pela palavra τέχνη [téxnê] que significa “técnica, arte, ciência”, daí ser a matemática a arte de aprender.
Com efeito, a palavra grega τέχνη [tekne] está na origem dos sufixos –tica e –ica de imensas palavras portuguesas, acrescentando-lhes aquele(s) significado(s). Assim, temos também a música, que é a arte das Musas (μῦσαι [müssai]); a política como a arte de conduzir/governar a cidade (πόλις [pólis]); a didática, a arte de ensinar (διδάσκειν [didáskein]); a física, a arte da natureza (φὐσις [füssis]) das coisas; a gramática, a arte das palavras (γράμματα [grámata]); a fonética, arte dos sons (ϕωναἰ [fônái]); a náutica, a arte dos marinheiros (ναῦται [náutai]); a ética, a arte dos costumes/moral (ἔθος [éthos]); a ginástica, a arte de praticar desporto à maneira dos jogos olímpicos da antiguidade, literalmente, γυμνός [gümnos], ou seja, nu.
Temos também outros termos helénicos que nos auxiliam na perceção doutros vocábulos lusos. Com ὑπέρ [hüpér] e ὑπό [hüpó],  que significam, “em cima” e “embaixo”, percebemos mais facilmente quando alguém sofre de hipertensão ou hipotensão, respetivamente; ou até distinguimos melhor o hiperónimo do hipónimo.  De igual modo, as palavras ὅλος [hólos], que significa “inteiro, todo” e  μέρος [méros], que significa “parte” nos ajudam a distinguir um holónimo dum merónimo.
Se soubermos, e. g., que ψευδής [pseudês] quer dizer falso; que ποδός [podós] é pé; que ἄκρος [ácros] é o mais alto, teremos um leque vocabular mais rico… Compreenderemos melhor o que é um pseudónimo, o que é um podologista e o que é um acrónimo. Também o advérbio εὐ [eu], que significa “bem” ou “com bondade”, nos explica a eutanásia (boa morte), a eugenia (boa origem) e o eufemismo (dizer bem (algo desagradável)) … Ou αματος [háimatos] ajuda-nos a compreender as palavras relacionadas com o sangue: Hemácias, hematologia, hematose, anemia (an+hemia), glicemia (sangue doce), leucemia (sangue branco)… Ou ainda ἄλγος [álgos], significa “dor” distingue-nos os vários tipos de dor: mialgia (nos músculos); lombalgia (na zona lombar); quiralgia (nas mãos); ou o analgésico, que tira as dores ou a nostalgia, que é o regresso à dor…

πατος [hêpatos] é o fígado e, daí a hepatite, que por sua vez tem também a palavra ἴτις [ítis], que significa “inflamação”; então todos os nossos vocábulos terminados em –ite designam uma inflamação em qualquer parte do nosso corpo: apendicite, laringite, otite, rinite, tendinite, …
Como os gregos antigos já eram um povo de marinheiros, isto é, ναῦται [nautai], termino com as palavras νῆσος [nêssos] ou νῆσια [nêssia] que significam “ilha”. Qualquer palavra terminada com alguma delas tem esse significado associado. Assim, temos o Dodecaneso (arquipélago de 12 ilhas no mar Egeu); o Peloponeso (ilha de Pélops); a macaronésia (ilhas afortunadas do Atlântico - Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde); temos também a Indonésia, Polinésia, Micronésia, … Aliás, quando ficamos com “amnésia”, ficamos como que presos numa ilha da qual não conseguimos sair.